O Contador

Contas, Headshots e Ben

Mal chegou ao mundo (final de 2016) e já chegou causando nas mídias. Uns amaram, outros odiaram, outros preferem não comentar, mas, eu, Nonna, estou aqui para dar minha cara a tapa e dizer que esse filme que você não “dá nada de início” simplesmente cativou o coração dessa vovó aqui – bons entendedores entenderão. Agora vamos aos “por quês”.

Para começar, temos Ben Affleck, despido das vestes do homem-morcego (Batman vs Superman – 2016), assumindo um papel um tanto inusitado, mas que na minha humilde opinião, encaixou com seu porte físico e com sua expressividade sutil. Temos o clássico dos clássicos do filme de ação (bem ao estilo anos 80 de Schwarzenegger): um homem misterioso, que possui uma rotina solitária e que é apresentada de modo leve, precisa enfrentar um desafio, que inclui uma organização bem preparada para abatê-lo – se alguém achar parecido com Duro de Matar (1988) ou com O Protetor (2014), é apenas coincidência (talvez). Então se prepare para ver bala, mas não tanta assim.

O filme nos conta a história de Christian Wolff, um contador pacato que aparentemente leva uma vida normal em sua empresa de contabilidade. É o que a cena inicial nos mostra. No entanto, com mais alguns minutos de filme, nos é revelado que Wolff é um contador de pessoas perigosas, como mafiosos do alto escalão internacional, e ele é caçado pelo Diretor de Crimes Financeiros Raymond King e sua analista, futura agente federal, Marybeth Medina, cuja história é revelada com sobriedade, mas, para mim, um tanto desnecessário para a trama central e a trama secundária.

No elenco, temos a presença do icônico J. K. Simmons – do clássico Spiderman de 2002 – como Raymond King, que, além de nos soar o típico personagem que sabe de algo, mas não tem como saber o que inicialmente, dá ao filme um toque de caso policial a ser desvendado e que tudo resolve com “horas do bom e velho trabalho investigativo”.

No papel de Braxton, o chefe de uma “empresa de segurança” que resolve todo tipo de situação com alguns tiros letais – risos – o filme nos traz Jon Bernthal (Lobo de Wall Street, 2013), e eu preciso informar: ao assistir este filme, guarde esse personagem num local especial, ele vai ser responsável por um dos melhores plots.

Anna Kendrick (A Escolha Perfeita, 2012) como a contadora Danna Cummings, que tenta, de alguma forma, se aproximar de Affleck. Aqui, preciso comentar: o filme não deixa claro qual o tipo de relação que possa existir entre Danna e Wolff, caso houvesse espaço para ser abordada, mas, ao meu ver, isso não é de todo relevante, visto que a ideia é mostrar como o autista percebe o mundo e as pessoas ao seu redor.

No meu ponto de vista singelo, este filme é muito mais que um clássico de ação com Ben Affleck e seu corpo de Batman, trata-se de uma tentativa de não romantizar, ou fantasiar, pessoas que possuem transtornos comportamentais. Muitas vezes, só vemos essa realidade – do indivíduo vivendo com uma condição especial – em dramas que nos fazem chorar. Apesar de O Contador também abordar um transtorno, isso é feito com uma roupagem mais: “eu tenho uma dificuldade, mas isso não me impede de viver e ser um contador”. Poderíamos dizer que, nesse filme, ter um transtorno não é um problema, porque ele não foi tratado como tal.

Wolff possui, como ele mesmo diz, “um tipo de autismo funcional”. Isso o impede de deixar de lado tarefas não finalizadas – detalhe importante para a trama – e de se relacionar de maneira mais profunda e natural com outras pessoas, no entanto, o autismo lhe abriu portas para o mundo da contabilidade e seu pai, um importante personagem para o filme e para a vida de Wolff, lhe mostra ferramentas para lidar com a realidade que não condiz consigo mesmo. O autismo é apresentado sem aquele drama pesado, ou aquela emoção inebriante, que geralmente vemos em filmes que abordam este tema. Na verdade, o transtorno limita por um lado, mas liberta pelo outro.

Ao observar a capa do filme, além do título, o que nos atrai é a forma como o protagonista nos é apresentado: um soldado fortemente armado de fardamento preto. A primeira pergunta que nos fazemos é: o que um soldado tem a ver com contabilidade? (essa pergunta é respondida, não se preocupem). O autismo foi, de fato, essencial não só para construir a personalidade de Wolff e sua percepção de tudo o que o cerca, mas para construir um personagem que nos surpreende dada as suas habilidades.

Isso foi o que mais me cativou em O Contador. Além das cenas de ação, devo confessar que sou fã desse gênero, essa proposta diferenciada de abordar um transtorno comportamental associado a uma vida perigosa. Vale à pena dedicar um momento para ver este filme, por que quem disse que autistas não podem fazer headshots?

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◆ Colunista: Ayanny P. Costa (Nonna)

Ficha técnica

O Contador (The Accountant)
2016
Duração: 2h 8min
Diretor: Gavin O’Connor
Elenco: Ben Affleck, Anna Kendrick, J.K. Simmons
Gênero: Ação, Drama

IMDb: sobre o filme

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